
"Escolhe aí um golo perto do Soito para a prova de Moncorvo e envia-me as coordenadas". A encomenda do mestre Vítor deixara-o encantado com a perspectiva duma aterragem na sua terra e, ao mesmo tempo, tão longínqua da Serra de Reboredo, a 90 km. João depressa rumou a Alfaiates, no planalto, perto da barragem. Cedo encontrou um campo livre de vedações e de muros, sem árvores altas nem cabos, uma aterragem segura para qualquer piloto.
Contudo, aqueles campos têm um passado grandioso para os portugueses, neles foram travadas diversas batalhas em diferentes períodos épicos da História de Portugal. A última foi há 200 anos, contra o Marechal Massena, a mando de Napoleão, e por um momento, perpassou a João a desagradável ideia de o golo ser ganho por um francês, ou mesmo um espanhol, num terreno de tal simbolismo para os portugueses.
Há quase um ano que uma nova asa, inexistente em Portugal, continua a ganhar sistematicamente as melhores competições, e essa asa voa já sob o controlo de espanhóis e de franceses. Certo que o nível desportivo dos pilotos portugueses é cada vez mais elevado, mas esse parapente tem ficado quase sempre nos lugares cimeiros e só dentro de um ano ou mais as asas concorrentes terão prestações idênticas.
Seria deslealdade escolher aqueles campos sob o risco de um piloto estrangeiro ganhar a prova ou tocar em primeiro lugar aqueles campos em que tanto lutámos pela soberania?
- Disparate! - concluiu rapidamente: “Os maiores inimigos de Portugal estão cá dentro!”
E, de facto, na prova foram os portugueses, “alegres e valorosos”, como outrora os soldados de Infantaria, a chegar ao golo em primeiro lugar. Foi mais uma competição bem sucedida, com três mangas realizadas entre os dias 22 e 25 de Julho.
No primeiro dia definiu-se uma manga para Ciudad Rodrigo, num total de 77 km. Ganhou o piloto Pedro Moreira, seguido de Cristiano Pereira e de Gil Navalho. No total, seis pilotos no golo, tendo alguns feito a prova em duas horas e meia, outros em mais de quatro horas.
No segundo dia, com condições mais débeis, optou-se por uma manga curta de 50 km, até Almeida, tendo chegado ao golo sete pilotos, liderados por Cristiano, por Suby Lutolf (Santapola, Espanha) e por Rui Nascimento (Vertical /Vale Glaciar do Zêzere).
No terceiro dia, sábado, já com mais pilotos inscritos em Torre de Moncorvo e sob um vento fraco e tórrido de Nordeste, optou-se por uma manga de 89 km até Alfaiates, Sabugal, perto da barragem, nos grandes campos, outrora de batalha, dum tempo conturbado da História de Portugal. Nunca da Serra de Reboredo, nem das outras serras nordestinas, havia sido desenhada e conseguida uma tão longa manga, transpondo a mais de 2000 metros de altitude o leito do Douro e, por três vezes, o do Rio Côa. Mais uma vez chegou ao golo em primeiro o piloto Pedro Moreira, do Clube Vertical / Vale Glaciar do Zêzere, seguido de Nuno Virgílio (Clube Desportivo de Câmara de Lobos) e de Rui Nascimento (Vertical). Um total de dez pilotos no golo, aterrando vários muito perto. Só portugueses na meta, para alívio do piloto João Carvalho, do Soito, que não pode deixar de recriar em Alfaiates os campos de outras pelejas.
Ao piloto Cristiano Pereira, que estava até aí muito bem classificado, não correu bem por ter tido um colapso com a asa a pouca altura, na Serra de Reboredo, vendo-se obrigado a recorrer, rápida e decididamente, ao pára-quedas, manobra que o levou a perder muitos pontos, mas que não passou dum incidente sem consequências.
Na classificação final deste sétimo Open de Parapente do Douro Internacional confirma-se a liderança de Pedro Moreira, seguido de Gil Navalho, do Clube os Montanheiros (Ilha Terceira) e de Cristiano Pereira, do Clube de Montanhismo da Arrábida.
Por clubes ganhou novamente, destacado, o Vertical / Vale Glaciar do Zêzere, seguido da Associação de Voo Livre de Sintra e do Clube AbouaAboua (Braga).
Esta prova, organizada pelo Clube Ares da Minha Serra, de Moncorvo, e dirigida pelo ex-seleccionador Vítor Baía, não contou para o campeonato de Portugal por questões meramente administrativas, embora outras provas, que contaram, terem continuado a ficar aquém do nível desportivo das competições de parapente que há dez anos se desenham a partir da Serra de Reboredo com esta magnânima equipa técnica.
É de salientar o habitual bom acolhimento do Clube Ares da Minha Serra, o clube anfitrião, que, mesmo não tendo conseguido incluir a prova no Campeonato nacional, não deixa de registar a presença de alguns pilotos que nunca deixaram de comparecer, desde que ali se iniciaram as competições de parapente, há dez anos.
As classificações e os “tracklogs” dos voos estão disponíveis no site http://www.aresdaminhaserra.pt/
Principais classificados:
| Task | Date | Distance | |
| T1 Manga 1 | 2010-07-22 13:00 | 76,5 km | Race to Goal with 1 startgate(s) |
| T2 Manga 2 | 2010-07-23 15:00 | 48,3 km | Race to Goal with 1 startgate(s) |
| T3 Manga 3 | 2010-07-24 14:15 | 88,9 km | Race to Goal with 1 startgate(s) |
| # | Id | Name | Nat | Glider | Sponsor | T 1 | T 2 | T 3 | Total | |
| 1 | 111 | Pedro Moreira | M | PRT | Macpara Magus6 | Vale Glaciar do Zêzere - CVLV | 1000 | 291 | 1000 | 2291 |
| 2 | 454 | Gil Navalho | M | PRT | Airwave FR5 | www.montanheiros.com | 880 | 746 | 378 | 2004 |
| 3 | 44 | Cristiano Pereira | M | PRT | Axis Mercury 3 | INATEL | 949 | 1000 | 53 | 2002 |
| 4 | 48 | Alexandre Agostinho | M | PRT | Axis Mercury | Vale Glaciar do Zêzere - CVLV | 608 | 713 | 656 | 1977 |
| 5 | 13 | Paulo Coelho | M | PRT | Advance Omega6 | Vale Glaciar do Zêzere - CVLV | 415 | 767 | 775 | 1957 |
| 6 | 9 | Rui Nascimento | M | PRT | Gin Boomerang GTO | Vale Glaciar do Zêzere - CVLV | 795 | 789 | 1584 | |
| 7 | 343 | José Carlos de Souza | M | PRT | Advance Omega7 | 398 | 334 | 678 | 1410 | |
| 8 | 3 | Suby Lutolf | M | ESP | Axis Mercury 2009 | 164 | 929 | 281 | 1374 | |
| 9 | 53 | Nuno Virgílio | M | PRT | Axis Mercury | 375 | 944 | 1319 | ||
| 10 | 117 | Paulo Nunes | M | PRT | Gin Boomerang GTO | APVLS - Sesimbra | 794 | 378 | 1172 |



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